Na psicanálise, dizemos que a cura vem pela fala. O divã não é apenas um lugar para desabafar, mas um espaço sagrado onde as palavras ganham novos pesos, cores e sentidos. Freud já nos ensinava sobre o poder da "cura pela fala" (talking cure), e Lacan formalizou que o inconsciente é estruturado como uma linguagem. É através dos atos falhos, dos chistes e do ritmo da voz que o sujeito se revela.

Ao longo da minha trajetória, descobri que escutar o sofrimento humano exige mais do que técnica: exige intimidade com a própria linguagem. Minha jornada pessoal com diferentes idiomas transformou profundamente a forma como acolho cada paciente que se senta comigo.

O Pragmatismo de São Francisco e a Língua Inglesa

Minha experiência em São Francisco, nos Estados Unidos, me aproximou do inglês de uma forma muito viva. O inglês carrega uma objetividade singular e uma capacidade de dar nome direto às coisas do mundo. Na clínica, essa vivência me ajuda a compreender a urgência do sofrimento contemporâneo e a importância da clareza quando o paciente precisa reconstruir suas narrativas mais caóticas.

A Poética de Paris e a Tradição Francesa

Morar por seis meses em Paris me permitiu respirar a cultura francesa em sua essência. A França não é apenas o cenário de uma das maiores reviravoltas da psicanálise com Jacques Lacan; é um lugar onde a palavra é tratada com refinamento, duplo sentido e respeito à sua opacidade. Essa imersão moldou minha escuta para os silêncios, as entrelinhas e a poesia que existe na dor de cada analisando.

A Pulsação da América Latina através do Espanhol

Atuar como analista de internet para a América Latina me deu uma perspectiva continental sobre a nossa subjetividade. O espanhol é uma língua vibrante, calorosa e cheia de nuances emocionais que nos unem como latinos. Essa bagagem me deu a sensibilidade necessária para escutar as marcas culturais, sociais e familiares que atravessam os pacientes da nossa região, entendendo o contexto onde suas angústias brotam.

A Lógica do Latim: A Estrutura do Nosso Pensar

Antes de tudo isso, meu contato com o latim durante o período em que estudei no Opus Dei me deu os alicerces da nossa própria língua, o português. Sendo uma língua que declina suas palavras, o latim exige um rigor lógico cirúrgico. Cada terminação muda a função gramatical e o sentido da frase. Essa estrutura me ensinou que a posição de uma palavra muda tudo — exatamente como no inconsciente, onde a troca de uma sílaba pode revelar um desejo oculto.

O Espaço Clínico como Tradução

Falar e entender essas línguas me ensinou que atender em psicanálise é, fundamentalmente, ser um tradutor do ilegível. Cada paciente traz consigo um idioma próprio, feito de suas memórias, traumas e afetos.

No meu consultório, coloco toda essa bagagem multicultural a serviço da sua história. Se você busca um lugar seguro para traduzir o que dói e encontrar novos caminhos para a sua vida, as portas estão abertas.